NPOR: A Versão do Emilio

Emilio Luciano de Miranda e Silva

14/06/2005

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Revisão 0.105/11/2000

Índice

O Alistamento
O Serviço
O Estágio
A Maldição
Epílogo

Este relato vai para o meu perdido amigo Marreco que me meteu nesta enrascada.

O Alistamento

Estava eu estudando Cálculo I, nos idos 1978, na casa do meu amigo Marreco quando ele virou-se para mim e disse,

-Bicho, arrumei um jeito da gente não servir o exército!

Peguei um pedaço de bolo e com a boca cheia respondi,

-Como?

-É o seguinte: a gente se alista como voluntário para o NPOR e depois leva pau nas provas e pronto, a gente vai dispensado na maior.

-Tão fácil assim? Não seria melhor se apresentar normal e pedir prá não servir?

-Cara, a gente pode se ferrar e pegar um oficial que goste de universitário e lá se vai um ano perdido na escola de engenharia.

Diante daquela argumentação não tinha o que negar. Fizemos os trâmites iniciais e lá estávamos nós na fila humilhante do exame médico completamente nús, tentando preservar precariamente os nossos traseiros com as mãos. Vez em quando, ouvíamos um grito para desencostarmos da parede para onde naturalmente os nossos traseiros se dirigiam. Estava eu nesta posição defensiva quando senti um forte puxão no meu pênis que me fez desgrudar da parede. Assustado olhei para frente e deparei-me com um criolo imenso, cabo de infantaria, que gritou-me na hora que lhe fitei os olhos injetados,

-Eu não falei que era para desencostar da parede.

Diante daquela persuasão a fila manteve-se alinhada sem que ninguém se atreve-se a dar com o traseiro na salvadora parede. O Marreco também não escapou. Vi quando ele avançou a linha amarela que ficava na frente do escaninho do médico e como este lhe deu um ripada nos flancos de uma das coxas com uma imensa régua de madeira que repousava acintosa em cima da mesinha. Eu, rapaz de classe média, acostumado com a papa-fina e com certa educação nos modos, exasperei-me deveras com aquele sórdido ambiente. Tomei resolução imediata de livrar-me daquilo o quanto antes. Ao ser indagado pelo médico se eu tinha alguma anormalidade, patogênica ou não, conhecida, retruquei,

-Tenho os pés chatos de nascença - forçando a prostação da parte interna dos meus pés.

-Mostre-me o dedo indicador fazendo este moviemnto,- disse o sagaz médico fazendo o gesto de apertar o gatilho de uma arma.

Ao deparar-se com a perfeita funcionalidade marcial do meu dedo, respondeu sarcasticamente, fitando-me com um sorriso maroto,

-Está apto para o serviço militar!

O Serviço

Blá

O Estágio

blá

A Maldição

O Paiva não nai se lembrar, mas eu enchia o saco dele:

-Cara, deve ser uma porcaria ter nascido e se criado na Messejana. Se eu fosse tú cortava os ovos e botava em cima da geladeira prá enfeite.

Sucede que no final do estágio de serviço vieram nos recrutar os homens da polícia federal. O Paiva foi-se pro Recife com os seiscentos diabos. E logo depois eu fui trabalhar aonde? Na Messejana. Labutei entre as frodonsas mangueiras por longos 18 anos. Por vezes, passava na frente da casa do Paiva alí ao lado do campo, digo, estádio de futebol. Virei cliente das tapioqueiras. Cortava o cabelo lá por cinco mangos-, enquanto no shopping era vinte. A Míria, ali perto da antiga estrada do fio, foi vetérinária dos meus cachorros. Enfim, virei um típico cidadão messejanense. Chega né Paiva. Mas, o fato é que até que gostei!

Epílogo

Depois de 18 anos trabalhando na Messejana pedi demissão voluntariamente da FAE. Tive de ir ao Sindicato dos Metalúrgicos, lá pelas bandas do Pirambú, para homologar a rescissão de contrato. Ao deixar o sindicato senti que estava virando uma página da minha vida. Confesso que estava meio paranóico com o polpudo cheque administrativo na minha pasta quando ao abrir a porta do carro divisei no outro lado da rua uma simpática casinha. Foi um choque. Imediatamente me transportei aos idos 1978. A minha memória abriu-se cristalina e me vi na salinha de entrada estudando com o Marreco (a mãe dele nos preparava uns refrecos e uns bolos que eram uma delícia) quando ele me propôs o o engôdo do NPOR. Foi exatamente alí no Pirambú que tudo começou para mim. Entrei sorrindo e arranquei em direção para uma outra fase de minha vida. Aquela tinha efetivamente se encerrado.