Dolores

Emilio Luciano de Miranda e Silva

2005

Registro de Revisões
Revisão 0.122/01/2005

Índice

O Leilão
O Plano Real
A Criação
A Digestão de um Ruminante
A Cria
A Ordenha
O Ultimato
O Desfecho
Epílogo

Fomos passar um final em família na aprazível serra da Guaramiranga. O meu filho era pequeno e resolvi levá-lo a um Pesque-Pague apesar de não gostar deste tipo de pescaria.

O lugar era agradável e tranqüilo e era a parte externa de um antigo sítio tão comum nas redondezas. Observei, antes de entrar, um curral ao lado de um estábulo e uma vacada Jersey com sua típica pelagem cinza. Lembrei-me da minha infância quando moramos na antiga Escola Técnica do Itaperí a qual estava sendo transformada na atual UECE[1]. O meu pai foi o coordenador do primeiro curso que lá se instalou, o curso de Veterinária. Todo dia, rcebíamos, da criação modelo de vacas leiteiras, uns bons litros de um leite espesso, gordo que além de ser avidamente deglutido pelos pequenos, transmutavam-se, também, em uma nata amarelada que muito apreciávamos no pão. As Jersey são vaquinhas muito simpáticas e de cor e porte que aprecio muito até hoje.

Pois bem, estava eu lá entretido com a pescaria quando se acercou um rapaz muito simpático puxando conversa. Era filho do dono. Tinha lá os seus 30 anos e vendo que eu observava amiúde as vaquinhas do curral, resolveu matar o tédio comigo. Depois dos prolegômenos, fiquei sabendo que o pai dele já fora presidente da Associação de Criadores de Jersey e que a pequena criação do sítio era de alto nível.

O Leilão

A saga do meu interlocutor começa em um leilão de animais da raça Jersey, onde ele estava mais para bebericar um uísque e desgustar os salgados do que propriamente para comprar alguma rês.

A encrenca, a mais das vezes, associa-se ao álcool. Depois de algumas doses o nosso mancebo começou a pegar corda de um parceiro de mesa.

-Como era que o filho do grande presidente nunca tinha sido tocado pelo micróbio da criação do Jersey. Sendo ele tão bem aquinhoado, já, já estaria com sua criação também. Veja como aquela é bonita. Veja como aquela é barata. Patati, patatá...

Aí o nosso patusco, num arroubo bovino, levanta o dedo nem bem sabendo o quilate da mercadoria, com o qual se seguiu o corriqueiro,

-E dou-lhe uma e duas e dou-lhe três. A novilha vai para o rapaz alí de camisa bege...

A peça era uma novilha faceira de pernas bem aprumadas, cascos linheiros, cabeça pequena, perfil quadrado da raça e ancas bem generosas.

Como de costume, o valor de 2.000,00R$ foi parcelado em 12 vezes o que deixou todos satisfeito, principalmente, o parceiro de mesa que viu os seus convencimentos adregarem-se naquela ocasião.

O Plano Real

Passava-se, então, o Plano Real. Aquela coisa urdida nos recessos cavernosos dos gabinetes brasilienses para acabar com a inflação, tornou a nossa moeda momentaneamente mais forte que o dólar de um dia para outro o que deixou a patuléia embevecida. Nem imaginava ela que fatura seria paga, em no mínimo, trinta gerações. Mas na ocasião, a única queixa que se ouvia era a dos estangeiros que estranhavam que existisse um lugar em que um cafezinho fosse mais caro que um espresso em Roma e uma garrafinha de água mineral mais cara que uma coca-cola em Berlim. Naturalmente, existia sim. Em Buenos Aires respirava-se um clima nova-iorquino já que o peso deixou de existir e, simplesmente, foi trocado pelo dólar. Eles sempre nos ultrapassaram no quesito ostentação.

O que acontece é que repentinamente tudo se tornou valioso sem que percebessemos muito. Mas, a esposa do nosso herói sabia de algo mais. Sabia o quanto custava uma feira no supermercado. Também sabia que naquela fatídica noite um real comprava 1,17US$.

-Como é bêbo sem-vergonha, que nós vamos sustentar os nossos filhos?

-É parcelado bem. E foi em dólar bem e todo mundo sabe que o dólar está mais baixo que o real.

-Parcelados vão ficar os teus cornos depois que eu jogar esta panela neles, seu disgramado. Tú se endividou em dólar e aposto que nem sabe se as prestações são pré-fixadas. Como se os americanos aceitasem o real forte para sempre. Cabra véi, basta um espirro em Washington para o real voltar a valer o que sempre valeu: uma barata morta.

Isto era o que dava se casar com mulher instruída. Somam-se uma língua ferina e uma mente analítica. Ela era economista.

A Criação

Depois da calorosa recepção do feliz comprador, foi a vez da novilha adentrar o lar.

-Quanto foi mesmo que custou a vaca?

-Não á vaca ainda, querida e custou 2.000,00US$ paus.

-O que dá 1720,00R$. E o nome dela vai ser Dolores, as dores dos dólares!

Inicialmente a Dolores ficou amarrada embaixo de um pé de jambo com um coxo de pneu com água e outro de madeira para o capim e a ração. O dia começava cedo pois, antes de se arrumar para o trabalho, o nosso criador de fundo de quintal tinha de dar água e comida para a Dolores e limpar o esterco antes que a dona de casa acordasse.

Depois veio uma pequena baia de alvenaria com água encanada,- ele já estava com dor nas costas de carregar o balde de água para encher o coxo-, conjugado com um pequeno depósito aonde guardava a ração. E o capim.

A Digestão de um Ruminante

O grande problema que apareceu para ele foi o capim. Se soubesse deste detalhe ele, definitivamente, não teria arrematado a Dolores. Sucede que os ruminantes não podem comer só ração porque ela os entope ou cria gases que tornam a disgestão difícil. Até aí tudo bem, mas como arranjar capim na zona urbana. A saida foi apelar para os criatórios clandestinos. Saída cara, pois o fornecedor ganhava no capim e no frete já que ele não estava disposto a estragar o carpete do porta-mala de seu Palio. De toda forma o porta=malas do Pai\lio não tinha espaço suificiente. Depois de resolvido o problema da fonte, apareceu outro: a juçara. É aquele pelinho do capim que em pessoas não alérgicas dá uma coceira danada e nos alérgicos dá: coceira, caroço, pereba, tosse, estalecido, etc. Nesta ordem ou tudo ao mesmo tempo. O problema da juraça apareceu por que o fornecedor para economizar na mão de obra não trazia servente tendo ele que descarregar a camionete GM 1950 com a ajuada esmorecida do salafrário. Depois, tinha que se virar sozinho pois a dona da pensão recusava-se em ir ao seu socorro com cremes e afagos.

A Cria

A Dolores saiu de casa uma vez. Foi ã fazenda do pai para ser coberta. A mulher passou uma semana de cara virada quando soube da mutreta. Não bastava uma, agora teriam duas. O motivo real foi que as prestações e a comida da Dolores estavam minguando o orçamento do nosso incauto e ele já estava pensando que seria mais fácil reaver os dólares com duas reses do que com uma.

O pai era um touro raceador premiado e fez o serviço rápido. Aliás dois, um de manhã e outro a tarde que era para não ter possibilidade de perder a viagem.

A Ordenha

A Dolores virou uma usina de leite. Com a cria sempre a seu lado o úbere ficava túrgido de tal maneira que a pequena bezerra não dava conta. Aí então o nosso intrépido criador teve de aprender mais um ofício: ordenhar. Primeiramente, ele pensou: é uma barbada. Mas depois que pegou nas tetas e apertou, espremeu, torceu e não saiu nada teve de mudar de idéia. Depois de aprender a manha com um cabloco que trabalhava para o fornecedor de capim, veio as dores na munheca e uma sensação estranha de inchaço nas mãos e nos braços quando estava sentado ao computador digitando alguma coisa. Finalmente, achou interessante quando a musculatura do braço ficou avolumada, parecendo-lhe os braços do Popeye.

Começou estocando leite no freezer até a mulher não deixar mais. Ofereceu para os vizinhos e só um quis. Levou, então, para os colegas de trabalho. Teve de arranjar um isopor grande no qual colocava garrafinhas plásticas com tampa de lacre. O seu carro já ressentia odores lácteos, fazendo com que a dona de casa lhe virasse a cara quando lá entrava. Mas, quem tomava do leite da Dolores gostava. Era espesso, levemente adocicado e deixava uma camada de gordura na superfície do recipiente quando guardado na geladeira. Depois começou usar a nata no pão e aprendeu com uma velha moradora da fazenda do pai a fazer manteiga. Mais tarde, pegou na internet uma receita de queijo Boursin.

O Ultimato

A bezerra crescia a olhos vistos. Com um suprimemto abundante de leite ela encorpava e tomava prumo. Quando desmamou começou a comer capim numa cota que era a metade da mãe o que muito preocupou a economista da casa.

-Duas não dá. Você teve sorte até hoje da Dolores não adoecer. Nós não temos plano de saúde prá vaca.

Ele alí cabisbundo ouvindo a reprimenda. Na verdade, a Dolores tinha tido uma complicação depois do parto, a qual foi tratada sorrateiramente no horário em que a patroa estava de expediente na repartição púbica que trabalhava: a sucursal do banco central em Fortaleza. Pois é, a mulher era economista do banco central.

Olha aqui cara, tú teve uma sorte danada do dólar se valorizar pouco.[2] Agora, sstentar duas vacas não vai dar não. Os vizinhos já reclamaram do cheiro quando a primeira chegou.

É querida, mas eu tiro de manhã cedo...

Foi cortado bruscamente. A mulher não estava para brincadeiras.

-Eu já falei com a mamãe e estou decidida: ou eu ou as vacas!

A parada estava federal. A sogra do homem tinha entrado na jogada. A mulher era braba que nem um siri dentro de uma lata. A filha tinha a quem puxar: a língua da sogra parecia-lhe bífida nas raras vezes que ela dirigia-lhe a palavra.

-Não precisa apelar querida. Só preciso de um tempo até a exposição de animais em outubro.

Corria o mês de maio de 1997.

O Desfecho

A primeira providência foi tirar o registro da novilha que nascera. O papel saiu em tempo recorde com o providencial pistolão do pai. Mesmo assim, teve de pagar pela visita do veterinário credenciado para o preenchimento da ficha morfológica necessária ao pedido de registro. Depois, vieram as vacinas e vermigugações. Tudo isto, feito ostensivamente aos fins de semana para mostrar a patroa as suas boas intenções. Ele flagrou, inclusive, a sogra, que começou a freqüentar sua casa mais amiúde, olhando demoradamente para a Dolores e sua cria. Como que terçando forças contra adversárias temíveis, apesar do olhar bovino delas.

A semana que precedeu a exposição foi farta em preparativos. A associação de criadores de Jersey emprestou uma máquina tosadora que ele usou para aparar a suave pelugem das duas. Ele percebeu a mesma fina e sedosa pois elas nunca sairam na canícula, ficando sempre a sombra do pé de jambo ou da menjedoura. A associação cedeu um lugar para as duas no estábulo que ela anualmente alugava da organização da feira agropecuária. Ele não teve como livrar-se da taxa mesmo com o pisolão do pai.

No dia que a Dolores debutou na passarela, lá estava ele engraxando os seus cascos, deixando luzentes com a um sapato de cromo alemão. Elas tinham direito a apresentar-se ao escrutínio dos juízes que escolheriam os campeões da feira por conta do seus pedigrees. O seu coração ficou compugido quando as duas desfilavam para a centea de pessoas n local. Afinal, ele as tinha criado com as suas próprias mãos. E com o orçamento familiar também.

Ele quase não acreditou quando os alto-falantes anunciaram o grande campeão da feira: a Dolores. A sua presença foi reclamada no palanque. De soslaio ele viu um sorriso na face da economista. Não dava para saber de felicidade de se livrar dos bovinos ou pelo laurel que ele agora recebia. O troféu foi entregue pelo seu pai como presidente da associação.

Logo após a cerimônia, um distinto senhor apareceu no estábulo e comprou a Dolores e a cria por 8.000,US$. Era um criador do Maranhão que desejava incrementar com uma campeã o lote de vacas leiteiras de sua fazenda.

Epílogo

Em fevereiro de 1998 o nosso herói estava vendo o Jornal Nacional. O sisudo tele-apresentador anunciava uma crise financeira que varria a Ásia. Dias depois a Rússia entrava em default e o Brasil via sumir o capital de risco em seu território. O real soçobrou ameaçando levar junto o seu principesco idealidor: Fernando Henrique. A cotação inverteu-se e rapidamente um dólar começou a valer 2,00R$. O FMI aprovou um repasse de trinta bilhões de dólares para socorrer o Brasil e seu laureado prsidente.

Quando a fatura do cartão de crédito chegou no final do mês, ele raspou a conta corrente para liquidá-la. Eram as últimas despesas que ele fez numa nababesca viagem de férias ã Europa com a esposa usando o dinheiro apurado na venda da Dolores.



[1] [1] Universidade Estadual do Ceará

[2] [2] As prestações eram atreladas ao dólar.

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