Copyright © 2005 Emilio Luciano de Miranda e Silva, segundo Common Rights
2005
| Registro de Revisões | |
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| Revisão 0.0 | 15/01/2005 |
| Revisão 0.1 | 11/02/2005 |
| Revisão 0.2 | 01/03/2005 |
| Revisão 0.3 | 21/03/2005 |
Raramente, eu faço uma conexão com o meu passado. As vezes, vêm-me sensações de quando menino, principalmente, quando sinto o vento alíseo na beira-mar cearense. Nestes raros momentos, lembro-me de minha infância na Fortaleza provinciana com seus belos casarões, suas avenidas arborizadas, dos vendedores de peixe na rua e, a minha lembrança predileta, a sensação de arrepio provocado pelo vento logo após uma saída de um banho de mar. Todavia, amiúde, o que se me ocorre é um negrume completo. Tenho péssima memória do meu passado.
No final de 2004, entretanto, ao reencontrar amigos que a muito não via, fui surpreendido com uma conexão com um passado distante, não meu, mas de outra pessoa.
Tudo começou com um convite gracioso de uma querida prima da minha mulher que, unilateralmente, fiz minha também[1]. Ela nos convidou para ir à pequena e pacata cidade de Extrema-MG para visitar um casal de amigos que para lá tinha se mudado, cansados que estavam do rush-rush da Paulicéia desvairada. Começamos a nossa viagem de São Paulo com as apreensões habituais: como sair de lá, será que vai chover, será que vai ter trânsito? Apesar de nossa prima morar no altiplano da antiga vila de Piratininga, ela mesma se diz perdida quando sai do percurso intra-marginais. Mas, saímos bem sem necessitar do auxílio da minha onipresente bússola do meu insepáravel canivete Victorinox.
Combinamos, então, de passar por Piracaia por conta dos afrescos de sua matriz que nos pareceu interessante. Escolhi, meio por instinto, deixar prematuramentwe a rod. Fernão Dias e tomar uma rodovia estadual a partir da rod. Pedro I. A Fernão Dias não me inspira confiança. Logo, que saímos do frisson dos grandes corredores de tráfego uma paisagem bucólica e rural se nos apresentou. Longas campinas com cercas bem cuidadas entrecortadas, mui escassamente, por restos da mata atlântica original. Diferente da caatinga que estou habituado, esta paisagem, amiúde, me oprime pela sua opulência.
Ao chegar na bucólica cidade, imediatamente, senti-me atraído por ela. A igreja estava fechada e ficamos perambulando pela praça que era muito arborizada, possuindo ainda uma cascata e um aparelho que vi amiúde na Europa, mas nunca no Brasil: um pequeno e gracioso chafariz de onde saia uma água fria e límpida. Percebi cantos de alguns pássaros. Entre os bem-te-vis e pequenos pássaros que não conheço, sobressaia o de uma sábia. Mal sabia que daí a pouco tudo isto faria sentido, como me preparando para uma experiência transcendental. Um delicado beija-flor veio flutuar na minha frente empenhado em sugar o néctar das muitas e bem cuidadas flores.
Rumamos, então, para Joanópolis não antes sem passar pela Cachoeira dos Pretos. Ao observar o lindo véu de noiva pensei de como os pretos escravos, subjugados que eram, tinham os seus momentos de alegria com a natureza deste lindo paraíso que foi o Brasil Colonial. Nestes poucos momentos voltavam à sua condição original de almas primitivas e simples. Naquele estado que o homem encontrava-se antes de afrontar a natureza tentando dela tirar riquezas, poder e vilanias. A civilização em si. Depois de deixarmos a cahoeira idílica, lotada de alegres comensais domingueiros aproveitando o fim-de-semana, tomamos uma estradinha municipal em direção à Extrema, evitando assim de novo Fernão Dias.
O cenário agora-, um grande vale, um saco de serra do maciço da Mantigueira-, reportou-me a uma guerra: a revolução constitucionalista de 32. Uma luta fratrícida orquestrada pelas elites da época. Como eu tinha visto no mapa, a capital São Paulo próxima aquele vale aonde passávamos em direção a fronteira mineira, pensei de como aquele passo era conveniente para um movimento de ataque à capital bandeirante de forças vindas de Minas e do nordeste. Para minha supresa, logo a frente, a estradinha de terra tinha uma pequena placa com o seu nome cravado: Soldado Manuel Constitucionalista. Parece que a minha idéia não foi original.
Chegamos ao aprazível sítio e nos instalamos provisoriamente sob os auspíciosos cuidados da D. Dalila, progenitora da dona da casa que fora fazer umas compras em Extrema. A simpática senhora, já aí pelos 83 anos, pareceu-me vivaz apesar das dores e inflamações típicas da idade.
No outro dia fiquei responsável pelo churrasco. Em certo momento, ficamos sós, eu e a D. Dalila e encetamos a falar da bicharada do lugar, pássaros que por alí abundam e os cavalos mangalarga paulista com suas típicas canelas brancas que pastavam placidamente na nossa frente.
Então, ela contou-me do pai. Um ferroviário, chefe da estação da pequena Piracaia, que tinha um apreço especial pelos bichos. Falou-me da casa onde moravam que era uma extensão da estação de trem. A mãe zelosa trazia sempre uma chícara de café com um punhado de açucar num pires para o serão diário que o chefe da estação fazia depois do expediente no intuito de arrumar a papelada. Todavia, ele gostava de café amargo. O açucar era para as formigas que viciadas diariamente visitavam a sua mesa naquele horário. Lembrei-me imediatamente da avareza de alguns monges budistas que andam com uma vassorinha na mão espanando o caminho a frente, muito mais, para não acumular carma pessoal com a destruição de pequenos insetos do que preocupados propriamente com eles. Comecei a identificar-me com este senhor de outra era que não conheci e que nem mesmo sei o nome. Ele encarnava o chamamento cristão, bem ocidental, de amar o próximo. Até mesmo os bichos. Provavelmente, conhecia a vida do Francisco, o asceta de Assis e com ele comungava no amor aos animais.
O seu cavalo de sela foi pacientemente ensinado a contar com a pata (um truque comum até hoje). Além disto, apanhava o chapéu que o dono, convenientemente, esquecia nos lugares aonde ia. Isto mostra que ele tinha algum conhecimento da antiga arte da equitação que naquela época era um distintivo social: a criação de cavalos para o turfe, o hipismo clássico ou a alta escola era um indicativo do mais alto grau civilizatório. Por isto, os ingleses denominam os seus puro-sangues de Througbread, os finamente selecionados.
Finalmente, ela falou-me do imenso viveiro de pássaros que ele possuia na ampla cozinha. Estranhei o fato pois cozinha não era lugar de viveiros. Toda a passarada da região estava lá representada. No final do expediente, antes do serão, ele fechava as portas e janelas da cozinha e soltava todos os pássaros. Foi neste momento que imaginei, tranportando-me para a atmosfera diáfana que este senhor produzia para si e para seus bichos de estimação. Enquanto ela falava, vi-me imerso num quadro vívido: uma velha cozinha, daquelas que conheci aqui mesmo no interior do Ceará, repleta de pássaros esvoaçantes em tremenda algazarra. Ele os alimentava além de falar-lhes na língua perdida para os homens civilizados: a expressão ubíqua da alma de Gaia. Subitamente, voltei de novo a realidade do espeto e da simpática senhora a minha frente.
No outro dia, tolo como sou, percebi os sinais que eu tinha visto e sentido em Piracaia. Sinais que costuram atemporalmente as ações da humanidade, do nosso mundo e que me preparavam para o que eu ia saber em seguida, apesar de eu tê-los desprezados completamente. A pequena cidade ainda reverbera estes atos de amor dele, este desconhecido senhor, e de tantos outros como ecos de um passado que não devemos rejeitar.