Copyright © 2004 Emilio Luciano de Miranda e Silva, segundo Common Rights
2005
| Historial de Revisões | |
|---|---|
| Revisão 0.0 | 21/07/2004 |
| Revisão 0.1 | 14/02/2005 |
| Revisão 0.2 | 23/10/2005 |
| Revisão 0.3 | 30/10/2005 |
Muito dos relatos aqui descritos chegaram assim a esmo sem que eu lhes desse muita atenção. Observa-se o inusitado, cômico e muitas vezes o trágico das ocorrências. As cidades da nossa sociedade comteporânea concentram uma quantidade tal de pessoas que de tudo acontece.
Em adiantado, peço escusas pela imprecisão causada mais pelo meu desleixo de só tomar estas notas depois de muito tempo transcorrido entre este momento e o dos ocorridos, do que propriamente, dos agentes que os fizeram chegar até este enviezado autor.
Estava eu espremido num vôo regular entre São Paulo-Fortaleza, folheando a Folha de São Paulo [1] quando deparei-me com uma reportagem que relato a seguir.
O enredo começa com uma cena comum no cotidiano da Paulicéia Desvairada, um seqüestro relâmpago. O cidadão estava parado num semáforo em uma das artérias que desaguam na marginal do Rio Tietê quando foi abordado por dois meliantes que o dominaram e tomaram o volante do seu automóvel. Transcorria aproximadamente o tempo de 21:00h. Começou o périplo usual em direção aos caixas eletrônicos. A coisa principiou a desandar quando os dois trânsfugas empinaram o nariz do carro em direção à uma boca de fumo, aonde, ato seguinte, drogaram-se.
Já iam adiantadas as horas quando deram-se conta, os velhacos, que urgia desfazer-se da infeliz vítima que a tempos padecia em suas tenebrosas garras. Rumaram para uma margem erma do Tietê, se é que ele ainda tem margem naquele trecho, e fizeram-no sair do carro. Improvisaram umas amarras e ataram suas mãos para trás. Empurraram-no até a beira do barranco e, felizmente, cometeram mais um erro em suas miserávewis vidas. Sucede que decidiram matar a miserável vítima com um balaço e, para isto, empurraram-no e atiraram. Exatamente neste ordem. A providência atuou no momento do passamento, de tal forma, que o petardo não fez senão um leve arranhão no ombro do desditoso. Dando-se por satisfeitos, a dupla de larápios escafedeu-se na noite paulistana.
Enquanto isto, o desventurado precipitava-se aos trambolhões em direção às pútridas águas do outrora piscoso Tietê. Ao término da desastrada queda, todo lacerado, jaz o nosso citadino com as pernas dentro d'água e o tronco arfante palpitando contra o malcheiroso barranco. Pela segunda vez, em um lapso de tempo, escapa da morte. Alí prostrado e ferido, o desgraçado reúne forças para fazer o caminho de volta. Barranco acima.
Enfim, depois de um esforço hercúleo e de um tempo que parecia não acabar, o nosso valente contribuinte, sujo e macerado vê-se ao pé da pista vergado pelo cansaço. Aí queda-se arfante com as pernas trêmulas pelo esforço \footnote{ Tente levantar-se com as mãos atadas às costas}. Finalmente, as coisas estavam indo no sentido de que ele, mais uma vez, poderia ver o pôr do sol
Lêdo engano. A princípio, pareciam-lhe sombras furtivas. Pouco a pouco, elas foram-se adensando. E daí um grupo materializou-se por entre as brumas. A alcatéia, tendo a frente um robusto meio-sangue de pastor alemão com seu lombo horrivelmente eriçado, mostrava fremitamente suas terríveis presas.
Aqui faço um intervalo para relatar-lhes uma observação que fiz antes de ter lido esta estória. Ao viajar pelo interior de São Paulo notei amiúde que os cães vira-latas eram maiores e mais encorpados que seus congêneres nordestinos. Até que em Serra Negra e depois em Ilha Bela topei um enorme cão Boxer e um Dinamarquês,respectivamente, com modos de cães vadios. Nas duas ocasiões indaguei pelos donos. O Boxer tinha sido abandonado em um sítio de muro alto e depois de alguns dias sem comer e beber pulou o muro e foi sobreviver na rua. O Dinamarquês foi simplesmente solto pelo dono que não mais o quis. Nos dois casos disseram que isto era relativamente comum. A partir daí, comecei a observar o resultado da miscigenação que esta atitude irresponsável provocava. E alí naquela apertada poltrona da aeronave tive pena daquela pessoa assediada por um bando de cães vira-latas depois de ferida a bala e entregue a própria sorte.
Bem, a matilha se achegou ameaçadoramente e o desaventurado arrumou forças para lutar pela vida. As primeiras investidas foram exploratórias. Logo as feras estavam mais audaciosas e ao perceberem a fraqueza e a limitação de movimento da vítima foram fechando o círculo. Por fim, quando já exausto e com as pernas calças em tiras, ele foi ofuscado por um farol de automóvel e uma buzina seguida de gritos.Os cães ao perceberem a ameaça fugiram na noite. A solidariedade ainda existe na Paulicéia Desvairada e o desventurado terminou sua horrível aventura naquela noite.
A minha cunhada Rosa Stellin, paulistana da Vila Madalena, fez uma brincadeira comigo quando soube que eu tinha feito esta página,
-O título da página deveria ser: as mentiras da minha vida!
Sucede que um dos episódios mais bizarros de que tenho conhecimento ocorreu exatamente na frente da casa dela...
A Vila Madalena já faz um tempo que deixou de ser aquele bucólico refúgio dos estudantes da USP que lá moravam devido aos baixos preços e proximidade do campus. Os botequins dos imigrantes, em sua maioria, portugueses e espanhois deram lugar a bares e boites freqüentados pelos descolados da noite paulistana.
O avô da minha mulher, português bigodudo, legou aos descendentes um casario no quarteirão que lhe pertencia. As que restaram estão postadas na Rua Harmonia defronte ao Deli Paris. Quero, antes de continuar, relatar uma traquinagem de minha parte. Quando estou na casa da Rosa adoro ir comprar pão na padaria chique de nome francês. Saio de camiseta, bermuda e sandálias bem cêdo e seja com qual tempo for,- faz tempo que não faz mais frio bravo em Sampa-, e vou comprar uns carioquinhas bem no meio dos tomadores de café. Sisudos, elegantes a maioria de preto folheando os devidos jornais como num café parisiense. E eu lá com a cara amassada e as canelas de fora :>)
A Rua Harmonia é famosa por sua ladeira. O trecho da rua aonde a casa da Rosa se encontra é mais ou menos no meio da ladeira. A rua termina em frente ao muro do cemitério São Paulo. É neste ponto que ela corta transversalmente um riacho que hoje não passa de uma galeria de águas pluviais. Qualquer chuvinha precipita na rua uma perigosa corredeira de água que devido a impermeabilização do solo e a inclinação da ladeira arrasta carros, destrói construções, etc. Um dia destes uma enxurrada derrubou a porta da frente da casa da minha outra cunhada, a Ester.
Bem, numa noite de chuva um pacato e gordo senhor bebericava uns drinques lá pelos lados da Fradique Coutinho. Já satisfeito, tomou o rumo de casa andando dois quarteirões á frente e virando a esquerda na Harmonia. Meio trôpego, empunhando o seu guarda-chuva lá ia o ébrio mantendo precário equilíbrio nas horríveis calçadas da Vila. Ao virar na Harmonia o turbilhão de água descia grosso. Sentiu-se seguro na calçada do prédio que é a melhor de todas. Passou em frente ao ponto de táxi que nestas horas fica vazio por temor dos taxistas de perderem os seu ganha-pão. Ao chegar em frente da revistaria do meu dileto amigo Pedro, o flatulento senhor deve ter parado indeciso. Uma árvore centenária, provavelmente, planatada pelo bigodudo lusitano deformou a calçada da casa da Tia Cila com suas potentes raízes. A deformação criou um declive para o lado de dentro da calçada fazendo com que a água em célere corredeira vá de encontro ao vetusto e robusto tronco. Um turbilhão furioso é, então, criado ao redor do mesmo arrastando carros dos desavisados que ali os deixam e colocando em risco a vida dos transeuntes. O imprecavido senhor avançou pelo lado mais interno da calçada decidido a molhar os sapatos quando, num átimo, a enxurrada o desequilibrou e ele foi ao chão.
O guarda-chuva aberto virou o seu instrumento de suplício. A água, em desabalada carreira, ao encontrar tal anteparo empurrou o já condenado transeunte em direção à coxia aonde corria grosso e célere o fluxo principal. Sucede que logo à frente, no meio-fio da calçada da casa da Rosa, um carro estacionado serviu de escora para o condenado senhor. E alí, bem na frente da casa dela, aconteceu uma cena surreal. Uma cena que daria um bom mote para um filme de terror. Ou uma boa invenção, uma mentira vamos dizer assim, numa conversa à toa numa mesa de bar. Aos gritos de escassos espectadores, acorreram à rua, arriscando-se à sanha da corredeira mortal o meu concunhado, Adriano, homem de compleição franzina mas de uma coragem de leão e outros. Debalde eles tentaram. O Adriano me confidenciou que durante instantes segurou a mão do senhor entalado debaixo do carro. Todavia, o peso do senhor lá pelo 90Kg bem encaixados na traseira do veículo e a água correndo perigosamente nos seus pés quase desequilibrando-o, fez com que ele largasse a mão do infeliz sob pena de ter o mesmo destino. Outros tentaram de outras maneiras e outros ângulos, mas o guarda-chuva, porém, não deixavam ninguém aproximar-se, a não ser que o incauto quisesse arriscar-se a cair na correnteza. O senhor lutava desesperadamente. Ora tentava empurrar o guarda-chuva para o lado, ora se apoiava no seu para-choque e tentava em vão sair por onde entrou.
Finalmente, alí em frente a Delí Paris e a casa da Rosa uma vida se esvaiou estupidamente. Como que num til à toa na algaravia escrita, em insandecida faina diuturna, pela coletividade da Paulicéia Desvairada.