Copyright © 2005 Emilio Luciano de Miranda e Silva, segundo Common Rights
2005
| Registro de Revisões | |
|---|---|
| Revisão 0.1 | 12/07/2005 |
| Revisão 0.2 | 31/07/2005 |
| Revisão 0.3 | 28/08/2005 |
| Revisão 0.4 | 10/09/2005 |
Tanto o relato como os personagens, apesar de parecerem reais, são fictícios
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Tudo o que ocorreu, na perspectiva atual, parece-me um turbilhão. Os eventos sucederam-se em cascata: tinha um colega, que a tempos não vejo, que indicou-me para uma vaga de engenheiro eletrônico e acabei com um chefe português. Mas, o colega não teve culpa. Se ele soubesse da desvairada conduta do diretor da empresa que me indicou, ele, por certo, teria avisado-me. Eu é que não levei em conta um aviso de um outro colega, engenheiro também, no dia que foi embora,
-Isto aqui é uma casa de loucos.
Avisado, eu fui. Mas, não liguei. Depois, quando o colega foi embora, ouvia pelos corredores:
-Aquele cara era doido. Não regulava bem da cachola.
E eu nada. Só muito tempo depois, quando disseram que o Pedro Collor era doido é que caiu a ficha: desconfie quando começam a chamar alguém de doido, pode ser que simplesmente estejam se descartando de um incoveniente. Mas, naquela época, eu era um neófito nestas coisas. Em bom português, um abestado.
Antes de relatar a minha desventura, veio-me à mente que algum bondoso leitor precise de alguma orientação para o caso dele ganhar um chefe luso,
Um português pensa como um português. -Pode parecer redundante, mas segundo recentes descobertas arqueológicas na penísula ibérica, os lusos podem ser um ramo bastardo do Homo Neanderthalensis o que sugeriria que eles não poderiam não racionar da mesma maneira que o Homo Sapiens.
Um português só pensa nele mesmo. -Isto pode ser uma maldade de minha parte, pois, ele pode pensar também na família dele, e eventualmente, nos amigos dele se, e somente se, estes proverem algum retorno palpável.
Não elabore muito o tema para uma reunião de trabalho -O português pode não entender.
Um português não tem imaginação. -A ilação é um mito, uma falsidade, pois, ao contrário do que dizem algumas línguas viperinas, eles conseguem se masturbar :>)
Tem português que gosta de piada de português.-Tenha cuidado, pois estes são mascarados e vão esperar para arrancar de você dez gemidos por cada gargalhada.
Tem português alegre.-Isto é uma crendice que eles espalham por aí. Como pode ser alegre quem o fado inventou?
As portuguesas têm bigode. -É a maneira delas de dizerem quem manda em casa.
Prefira as sextas-feiras para expor uma idéia que você deseje aprovada. -Esta é uma das hipóteses para o desaparecimento do Homo Neandertalensis, a função cognitiva decai assimtópticamente a partir de segunda-feira .
Sempre apresente três planos diferentes para um mesmo projeto -Isto causa uma confusão mental tremenda no portuga. Como ele tende a rejeitar qualquer coisa que não seja dele e ao mesmo tempo ele não consegue formular uma quarta opção, ele termina invariavelmente aceitando um dos planos que você apresentou. É infalível.
Aprenda a pensar como um português -Além de útil em algumas horas, pode servir para que você tenha uma idéia da vacuidade budista.
Aprenda a lógica lusitana -Pode ser uma experiência excitante, pois ela não tem raízes nem nos pré-socráticos, nem no platonismo, do aristotelismo herdou o enfado, do Cogito cartesiano aproveitou somente a vertente narcísica e do iluminismo ela foge como o diabo foge da cuba batismal.
Quando o lusitano não entende o conceito, ele fala a palavra associada ao mesmo erradamente -Por exemplo, se ele disser estrategía pode ter certeza de que ele não consegue eleborar conceitos estratégicos simples.
Fale somente no modo direto, compondo a frase sequencialmente em sujeito, verbo e predicado -Os portugueses têm uma dificuldade tremenda com o modo indireto de expressão, podendo tanto indicar uma tendência herdada do tronco neanderthalês, bem como uma inapetência do aparelho mental para lidar com a imaginação e a subjetividade.
Não espere recompensas, incentivos ou elogios -Tem algumas teorias que dizem que eles não largaram o cabo do chicote aqui no Brasil. Eu prefiro acreditar que eles faltaram esta aula no curso de Administração.
O português só conta uma verdade se ele ganhar algum dinheiro. -Não é bem assim. Ele também pode contar uma verdade para impedir que um outro qualquer ganhe algum dinheiro.
A integração no ambiente de trabalho de um português é sempre parcial. -Ele evita uma integração social completa, por que alguém pode sair ganhado alguma coisa além dele.
Um português sempre rejeita uma idéia nova -Ele precisa de um certo tempo para entendê-la.
Você sempre vai ter a sua idéia apropriada pelo português -Isto é comparável a uma lei física. Como ele não tem capacidade cognitiva suficiente para elaborar novos conceitos ele tende a se apropriar das idéias dos outros.
Você realiza e o português capitaliza -A afirmação tem duas vertentes. A primeira é que enquanto você labuta ele manobra para ficar com os louros. E a segunda é que ele sempre arranja um jeito de ganhar um dinheiro com o seu esforço.
O alemão é um português que aprendeu matemática -Piada maldosa que os franceses insistem em contar para os turistas alemães que visitam Paris.
Estava eu na minha labuta diária, quando um dileto colega acercou-se e foi dizendo,
-Elpídio, acabei de falar com o Manuel Tunga.
-O que ele quer desta vez?, retorqui.
-Isto tú vais já saber. Desculpe, mais eu joguei para cima de ti.
Dito isto saiu rapidamente. Sem dar chance de réplica. Daí a pouco aparece o portento. Com os seus 1,50m de altura, cabeça desprocionalmente grande, corpo mirrado e os olhos estufados como que saltando das órbitas, mal disfarçando um hipertireoidismo crônico. A hiperatividade dos gestos, produzida pelo funcionamento aloprado da tireóide, combinada com o olhar solerte e malicioso lembravam-me as grotescas figuras do pintor alemão Bosch bem como as gárgulas das catedrais medievais européias. Só que enquanto estas postam-se estáticas para a comtemplação, o homúnculo movia-se por movimentos reptilianos, como que carregando toda a torpeza e o opróbio da sua degenerada estirpe. Acredite-me bondoso leitor, aquele mequetrefe metia calafrios de asco na minha espinha enquanto que a minha pobre alma gemia de agonia nos recônditos do meu ser.
-Elpídio, você pode ir lá em casa hoje para arrumar o fax do meu computador? É que ele não está funcionando de jeito nenhum ...
Tentei alguma argumentação, mas o parvo não arredava pé: queria, por que queria que eu fosse ajeitar o seu gadget recém adquirido. Aceitei resignado. Telefonei para a minha amada esposa e disse-lhe com voz desenxabida,
-Querida, reze um terço por mim. Ou melhor, uma novena. Daqui a pouco eu vou descer ao Hades. Passear pelos Campos Elíseos. Sentir o peso da presença do Caronte com a sua indefectível barca. Cheirar o bafo pútrido dos espectros mulambentos das bacantes degeneradas da Trácia em estridente alarido, por entre as súplicas das almas desgarradas pedindo ao funéro barqueiro uma passagem, sempre negada, para o outro lado do rio. Vou confrontar-me, querida, com as sujidades e as bestialidades legadas pelas mentes mais abjetas e depravadas do velho mundo.
-Deixe de ser exagerado meu bem,- disse-me com voz angelical. Tú só vais na casa do teu chefe!
Ela tinha razão. Mas, que culpa tinha eu de ter recebido educação tão esmerada? Que acende em pira a minha imaginação? Que faz com que as palavras saiam aos borbotões? Aos quatro ouvia os acordes de Für Elise de Beethoven dedilhados esmeradamente pela minha bondosa mãe no seu piano Essenfelder. Aos dez já tinha-me metido pelos clássicos brasileiros do Machado, do Alencar, do Lobato. Aos 14 embrenhei-me pelos franceses no ruge-ruge dos mosqueteiros e nas desventuras dos desvalidos de Zola. Aos 15, esgrimava os ventos ombreando o Quixote. Aos 17 lia o Fausto no original alemão. Aos 20 entremeava os clássicos: Virgílio, Platão, Aristóteles, Descartes e tinha predileção especial pelo Spinoza. As vezes, eu queria mesmo ser um energúmeno. Um bruto. Sofre-se menos.
Num átimo, estava espetando o indicador na campainha do apartamento do meu chefe. Saira tal qual um zumbi do meu trabalho e não notei os ventos alíseos roçando no cocuruto dos coqueiros, nem o gavião-peneirador que sempre está a espreita de algum roedor, nem as crianças pedindo esmolas no semáforo nem nada. Uma jovem senhora abriu a porta e atendeu-me gentilmente. Relaxei um pouco e já estava concordando com a minha esposa: eu estava exagerando. Mas a noite estava só começando. E os viajantes sempre fazem votos de fortuna no início das suas jornadas.
-Aceita uma coca?
Balbucie um sim, balançando a cabeça desajeitadamente. Fiquei ali tal qual um estafermo. Uma fantoche mal-ajambrado. Um cachorro em cima de uma carroça de mudança. Deslocado, sem encontrar apoio no sofá aonde estava encolhido num canto. Daí a pouco entra o celerado. Os meus dedos crisparam-se no copo até as pontas ficarem brancas com uma barriga de um caçote. Não pude conter a reação. Duas crianças zarparam em direção à porta, como que liberadas de suas coleiras psíquicas pelo algoz paterno para mitigarem-se com sua ração diária de folguedos. Lembrei-me imediatamente de meu filho. Inteligente, faceiro, espirituoso, misericordioso, responsável, bonito: um típico brasileiro. Infelizmente, poderia conviver no futuro e no mesmo espaço social com estas pequenas criaturas engendradas por este psicopata lusitano. Tive pena dele. Mas, como os mais novos tendem a ser melhores que nós mesmos, uma das duas acontecerá: ou ele arranjará meios de lidar melhor com a situação ou estes pequenos entes que estão a minha frente se revoltarão contra o jugo da sua origem malsã e se superarão, tranformando-se em versdadeiros cidadãos. Naquela noite entendi o por que dos assassinatos de crianças nas guerras entre povos que se odeiam.
O catimbau arreganhou as fauces em minha direção e sibilou, à guisa de cortejo, como as criaturas negras que habitam as locas pantanosas,
-Venha Elpídio, vamos entrar, o computador está aqui.
Resignei-me e adentrei num pequeno gabinete aonde estava localizado o ícone de consumo de nossa sociedade de idiotizada: um IBM-PC 486DX com um respectivo monitor e uma inconfundível impressora HP500C. Todos dois na cor de geladeira, como convém aos eletrodomésticos. Estávamos lá pelos idos 90 e o mequetrefe tinha ido a uma viagem pela Ásia e EUA. Passou por Miami e adquiriu a catrevagem de um marreteiro cubano, como veremos mais à frente.
Rapidamente liguei a aparelhagem. Abri o Microsoft Word e solicitei do pérfido algum número de fax. Escrevi um pequeno texto e em seguida solicitei uma impressão. Na caixa de diálogo correspondente encaminhei o texto para a opção FAX. Uma outra caixa de diálogo abriu-se e eu inseri o número do fax. O piado característico da conexão serial se fez ouvir no pequeno alto-falante do PC. Depois de finalizada a transmissão pedi ao energúmeno o fone do cidadão dono do fax. Liguei para o senhor e solicitei a confirmação do envio. Depois da resposta positiva, fui-me levantando,
-Ok Tunga, o sistema todo está funcionando. É só uma questão de saber alguns passos. Por favor, sente-se que eu lhe mostro como.
-Mais não é isto que eu quero. Assim não vale. Isto aí que você fez não é fax. Fax é isto aqui ...
Dizendo isto pegou uma folha A4 escreveu alguma coisa e, ato contínuo, colocou-a no berço da impressora HP.
-Agora pode passar o fax!
Como nos versos de Carole King numa balada dos anos 70,
I feel the earth move,
Under my feet,
I feel the sky troumbled down ... [1]
Foi como o céu dos gauleses, aqueles da aldeia do Asterix, despencasse sobre a minha cabeça. Cai num transe e escorreguei para o abismo frio e impessoal dos engenheiros. Comecei a purgar as minhas faltas técnicas: aquela grosseria que fiz com meu profesor de eletrônica básica, aquela válvula que eu quebrei, aquele pobre transistor que super-excitei, aquele disco rígido que formatei por engano e paro por aqui. Senti-me um rato técnico. Deveria ter feito uma falta muito grave para passar por aquilo. A minha pobre mente não conseguia fixar o turbilhão de sensações que corriam céleres. Eu só não enlouqueci por que catei no redemoinho, trechos do livro "O ZEN e a arte de manutenção de motocicletas". O autor, um engenheiro, fez uma disgressão muito bem fundamentada sobre o uso da tecnologia em nossa sociedade. Em poucas palavras: como você pode pedir a um índio brabo que acenda a luz de um quarto se é a primeira vez que ele entra num? Aquela idéia foi-me acalmando e, lentamente, fui retornando do meu transe psico-técnico. Candidamente, repliquei
Mas, mas Tunga,- balbuciei-, a impressora não passa fax! Ela só imprime.
Ao ouvir aquilo, o pequeno crápula começou a ter um ataque. A espinha sofria contrações que a deixava em formato convexo. A nuca e a papada ficavam momentaneamente rígidas e em seguida afrouxavam-se num movimento de sístole-diástole. A tireóide sobre tais estímulos soltava esguichos de hormônio na circulação sanguínea que simultaneamente acelerava o metabolismo e neutralizava o fármaco usado para conter o excesso hormonal. Os olhos esbugalhados queriam saltar das órbitas. Os braços e as bochechas tremiam assícrona e arritmicamente. O corpo, enfim, parecia que não ia resistir ao ataque de cretinismo.
-Além de burro tú és um incompetente. Como é que que não consegues botar este fax para funcionar- dizia apontando para a impressora.
-Talvez o vendedor tenha se enganado.
O boquirroto não se acalmava. As imprecações jorravam sem parar. Uma hora dirigia-se a mim outra ao megarefe cubano. O mafião exercitava o passatempo predileto: atanazar o alheio com palavras vis.
-Aquele cubano grandissíssimo filho de uma putaña me vendeu uma porcaria que este incompetente não sabe por para funcionar. E eu aqui perdendo tempo. Querendo passar um fax e não posso. Não adianta eu vivo rodeado ignorantes ...
Enquanto isto eu só pensava nas últimas palavras de Göethe: Mehr licht! [2]. Resignei-me diante da enxurrada de impropérios. Estava pensando numa saída quando o indefectível,
-E agora?
Tirou-me das conjecturas. Um santo baixou e eu respondi,
-Eu garanto que se no manual da impressora tiver alguma coisa relacionada com passar fax, eu passo um fax nela hoje.
Reconheço, bondoso leitor, que não foi a melhor saída. Mas, foi a possível. Isto é, a menos ruim. Resguardava o meu futuro. Se ele visse que no manual da impressora não tinha a palavra fax, poderia existir a possibilidade que ele não pegasse no meu pé toda vez que me visse,
-E aí não teve outra idéia para o meu aparelho de fax funcionar?
Então, o tinhoso encetou a busca pelo manual da impressora. Eu alí olhando e curtindo a cena. Eu não sabia se sentia pena dele ou de mim. Subiu em cima de uma cadeira e não adiantou muito, lá estava eu puxando uma caixa de papelão da parte de cima do guarda-roupa. E toca tirar bungicanga de dentro da caixa e o manual não aparecia. Depois de muito pelejar, apresentou o pequeno volume com um olhar triufante. Como que dizendo: agora eu te pego desgraçado.
De posse do opúsculo resolvi dar uma de cínico. Lentamente percorri o índice, traduzindo cada seção de maneira afetada, saboreando cada palavra,
-Ligaaando a impressoooora. Colocaaando papel. Trocaaando o cartuuucho ...
Lá pelo final do índice a alma sebosa ao meu lado se impacientava. Não havia nenhuma alusão, nem de longe, à palavra fax. Aquilo mexeu com os brios do embusteiro,
-Índice não vale porra nenhuma. Eu quero ver é no conteúdo!
Aí então, paciente leitor, comecei uma longa leitura do manual, atrasada teatralmente pelo meu recriminável comportamento. Ao final, entre muxoxos, resmungos e ameaças,
-Eu ainda vou procurar direito. Todo mundo sabe que o teu inglês é um lixo!
Ao sair à rua, fiquei parado uns instantes sorvendo as brisas que os ventos alíseos provocam na noite fortalezense. Sob o céu estrelado da capital cearense, fiquei imaginando como chegamos a este ponto. A nossa civilização ocidental tão ciosa de seus feitos ao invés de produzir homens, produz amiúde simulacros de humanidade. Será que sempre foi assim?