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14/06/2005
| Hitorial de Revisões | |
|---|---|
| Revisão 0.1 | 26/06/2000 |
| Revisão 0.2 | 15/01/2005 |
| Revisão 0.3 | 14/06/2005 |
| Revisão 0.4 | 10/07/2005 |
Os nomes do relato são fictícios e o seu contexto é ficcional.
Numa modorrenta tarde de domingo, do ano da graça de 1980, eu, um jovem e reles Aspirante-a-Oficial, estava de serviço em minha unidade. Os anos difíceis da ditadura militar tinham passado. Todavia, ainda restavam tensões do lado militar e ressentimentos profundos na esquerda militante e ex-armada. Não que eu me considerasse do lado de cá, o militar. Tampouco, militara do lado de lá-, eu era muito jovem para guerrear em qualquer lado nos anos de chumbo. Porém, deste da luta que Olavo Bilac, um civil, encetou pelo alistamento obrigatório, eu, bem como uma legião de brasileiros antes de mim, estou aqui labutando no batente da Pátria. Mas, naquela tarde de domingo, nada disto assaltava-me. Só uma preguiçosa perspectiva do anoitecer na caserna. Somente quem esteve engajado sabe como é deprimente um final de tarde de um fim-de-semana num quartel. Pior que isto só a guerra. Subitamente, fui tirado de minhas reflexões pela aproximação do cabo corneteiro. Era um indivíduo gordo, flatulento de relaxado enquadramento. Em outras épocas tinha trabalhado no rancho. E parece que se deu bem, mantendo as conexões certas,- o que é mais prudente em todas as corporações militares. Depois da apresentação formal, falou-me:
-O sagento Amora aprontou a tropa para o rancho.
Era hora de alimentar o pequeno contigente sob minha responsabilidade. Rumei para o refeitório, secundado pelo cabo e finalizei todas as formalidades: apresentação da tropa, inspeção visual e ocasionalmente um pequeno sermão. Depois dos prolegômemos marciais, ao sair, notei que o cabo não estava junto dos outros no refeitório. Encontrei-o no corredor do corpo da guarda sentado e meio sonolento. Remendou rápido ao notar minha estranheza:
-Já fiz um pequeno lanche, Aspirante.
Disse isto alisando a enorme pança. Ri internamente, se é que isto é possível, mas mantive a fisionomia cerrada.
-Quanto tempo de engajado, cabo?.
-Faz tanto, que eu perdi a conta. Mas penso que uns vinte anos, respondeu.
Retirei-me para o cassino dos oficiais. E lá fiquei distraindo-me ora na sinuca, ora na paciência de um baralho que eu mantinha escrupulosamente escondido para estas ocasiões, até a hora do jantar. Lá pelas tantas, o cabo apareceu novavamente e depois da apresentação de praxe:
-O sargento avisou que a tropa está pronta para a revista.
Era a hora do recolhimento. Depois da revista chamei o cabo e pedi que tocasse recolher. Por mais bizarro que pareça, era uma das coisas que mais gostava na caserna. Aquelas notas melacólicas transportavam para um estado comtemplativo que dormitava no fundo de minh'alma de homem urbano, civilizado. Para batalhas que nunca lutei. Para um tipo de sofrimento, glória e estupor que nunca tive-, e espero nuca vir a ter. O homem, no final das contas, gosta da guerra. Esta estupidez ridícula que ronda a humanidade de tempos em tempos, repousa latente na mente masculina. Quando ele terminou, perguntei-lhe,
Cabo, qual foi a coisa mais interessante que você viu durante todos estes anos de quartel?
Fiz aquilo meio inconsciente. Talvez, por que o meu tempo alí seria curto. Afinal, o meu serviço estava por findar e, então, voltaria aos bancos da escola de engenharia. Certamente, esperava um relato de uma perseguição a algum pobre guerrilheiro na zona urbana de Fortaleza. Ou mesmo, uma emboscada sofrida em algum recanto do Araguaia. Mas, o que tive como reposta:
-Talvez eu não devesse contar ao senhor...
-Porquê?, retorqui.
Depois de um breve momento de exitação, ele relatou-me o incidente. Ele ficou conhecido entre a soldadesca como a A Batalha do Canal. Um episódio intenso na vida daquele quartel.
Estamos no auge da repressão militar ao movimento armado que se segui ao AI-5. O general ditador Emilio Garrastazu Medici e seus sequazes tinha calado as vozes dissonantes e conciliatórias tanto da caserna com as hostes civis,- elas mesmas seriam engolidas depois-, que apoiaram o golpe de abril de 1964. Naquela época, assim como na do relato, a nossa unidade era geminada com outra. A separá-las um esgoto a céu aberto, conhecido simplesmente como canal. Sendo o nosso quartel de artilharia e o outro de infantaria. Hoje, no ano de 2005, existe uma avenida margeando o canal e separando os dois quarteis. O quartel onde servi mudou-se para a região norte, o outro permanece no mesmo lugar.
Este canal, na época, era o calcanhar de Aquiles dos dois quarteis. Ele cruza perpedicularmente duas avenidas de grande movimentação que são os flancos dos mesmos. Não havia muros, cercas nem arames farpados internamente aos quartéis. Tampouco, na confluência das avenidas o seu leito era protegido por tela ou algo que o vlha. Aconteciam incidentes esparsos. Casais namorando na proteção metálica. Bêbados brigando na madrugada. Todos sem muita importância. O fato é que não era difícil esgueirar-se pelo seu leito e entrar sorrateiramente, tanto no nosso, como no outro quartel. Isto provocava calafrios nos militares. De tal forma, que ambos quartéis mantinham vigilância cerrada nos dois extremos do canal. Onde ele entrava e saia da zona militar. No nosso lado a vigilância era móvel composta por um par de sentinelas armados que percorriam um trajeto pré-definido nos fundos do quartel e um vigilante na frente. Tinha duas guaritas no outro quartel, uma em cada extremo do canal. Até eram equipadas com telefone. Um modelo da primeira guerra mundial que tinha manivela. Era rústico mas nunca falhou. O arranjo sempre funcionou, é verdade que teve alguns percalços como já dito. Armado o cenário físico, vamos ao drama humano.
Num final de semana da década de 1970,- estas coisas acontecem sempre aos fins de semana-, precisamente num sábado, um soldado voltava de uma farra. A hora corria por volta das 20:00h. Para driblar a revista do corpo da guarda [1], ele deu a volta em torno da periferia do mesmo e pulou o muro exatamente num ponto dialmetral ao corpo da guarda, nos fundos do quartel. Sucede que era um ponto relativamente cego para ambas sentinelas daquele lado do canal, motivo pelo qual, era usado nestas emergências etílicas. Bastava o malandro esperar que uma das sentinelas móveis se afastassem para, então, saltar o muro. Nesta noite, para seu azar, um dos vigilantes percebeu o salto trôpego do etilizado militar e gritou o indefectível alto lá. Como resposta obteve uma imprecação chula, mas, reconheceu de pronto a voz do indíviduo como a de um par da sua própria bateria. Não era nenhum segrêdo para os soldados aquele subterfúgio. Principalmente, aso finais de semana. Motivo pelo qual a artimanha era zelosamente escondida dos seus superiores. Pois bem, como não tinha nada para fazer, ou seja, estava literalmente de saco cheio e por que também não gostou do tom debochado da resposta, assestou o velho e azeitado fuzil de ferrolho na direção da figura furtiva, tendo o cuidado de desviar um pouco a mira e sapecou um balaço na direção do alcoolizado zombeteiro.
Cabe aqui uma explicação.Nesta época o exército estava num esforço de modernização de seu equipamento, via de regra, todo ele da segunda grande guerra, Para isto, tinha licenciado o FAL[2], um moderno fuzil de assalto de origem belga. Todavia, devido as conhecidas limitações orçamentárias,- que não respeitam nem mesmo um regime militar-, a equipagem era gradual. Naqueles dias o nosso quartel ainda estava equipado com os fuzis de ferrolho de cinco tiros que tinham atuado nas encostas de Cassino na Itália. Já o nosso vizinho dispunha dos modernos e cobiçados fuzis belgas.
Pois bem, aquele tiro no escuro foi ricochetear na guarita do quartel vizinho, do outro lado do canal. O sonolento vigilante não sabendo de que lado tinha vindo o tirombaço, mas guardando a lição de que tinha de revidar a fuzilaria, ajustou o mecanismo do seu FAL para automático e despejou uma rajada para o lado do canal que era o lugar que sempre o sargento falava para els olhar. A rajada o assustou e seu efeito foi devastador do outro lado do canal. Imediatamente, o outro sentinela móvel, meio zonzo de sono, que não tinha visto em quem o colega atirara, abriu fogo na direção da guarita pois ele viu perfeitamente os três lampejos da rajada vindo de lá e gritou para o outro:
-Os guerrilheiros tomaram a guarita do outro quartel e estão atirando em nós.
Então, os sentinelas começaram a trocar tiros numa proporção desigual. O bêbado, pavio da fuzilaria, tratou de sair rapidamente da linha de tiro indo refurgiar-se em seu alojamento. Enquanto isto, o tiroteio era ouvido nos dois corpos-da-guarda dos dois quartéis. O Oficial-de-dia do nosso quartel organizou rapidamente uma pequena patrulha, secundada pelo sargento Salviano que saiu no trote característico conhecido como "marche-marche acelerado" para os fundos do quartel. Este elemento tinha sofrido uma patoogia nas cordas vocais e, como seqüela, ficou com a voz esganiçada tal qual um grito de carcará ou mesmo de uma rasga-mortalha. [3]
O sargento ganiu uma ordem ao aproximar-se da zona de tiro e o pelotão desdobrou-se numa manobra clássica de infantaria. O samango, pai da confusão, e não tendo previsto tal furdúncio tergiversou e mentiu descaradamente. Disse que disparou contra um vulto que não obedeceu à sua ordem de alto. E que o mesmo esgueirara-se na direção do canal. Ao seu disparo o invasor revidou com uma descarga de metralhadora. O sargento deduziu do relato que a sua tropa estava em desvantagem e, com um sinal, chamou um soldado próximo.
-Corra ao corpo-da-guarda e peça ao tenente o apoio de uma "ponto cinqüenta".
A metralhadora "ponto cinqüenta" é do tipo anti-aéreo com o comprimento do projétil um pouco menor que uma chave de mão. É equipamento padrão nos corpos de artilharia, como o nosso, para defesa anti-aérea.
Enquanto isto, do outro lado, o bivaque era desmontado celeremente. A guarita dispunha de um moderno sistema de telefonia à manivela. Por intermédio deste, a sentinela pediu reforço. Logo em seguida, um pelotão completo e equipado com os modernos FAL entrava em ação.
E a fuzilaria comendo solta. Sucede que o metralhador disponível era exatamente o bêbado pivôt da encreca, que providencialmente, foi encontrado e posto em ação - apesar do estado etílico. Como a iluminação era precária e os dois grupos se entricheiraram em suas posições, hora por mêdo, hora por inépcia não houve baixas graves. Um arranão aqui, uma esfoladura alí e o combate seguia renhido. A grande metralhadora antia-aérea, com seus projétéis traçantes, cobrava seu tributo das hostes inimigas,- apesar de sua mira está um tanto quanto incerta devido ao grau alcoólico do atirador-, com a sua cadência monótona e tétrica.
Um jovem tenente de infantaria estava numa boa posição de observação, abrigado por detrás da barreira do estante de tiro do seu quartel. Ao observar o matraquer monótono da metralhadora anti-aérea e os projéteis traçantes na direção de seu soldados, virou-se na direção do seu sargento e exclamou,
-Aonde diabos estes guerrilheiros arrajaram esta metralhadora?
-Pode ser que tenham roubado dos artilheiros, retorquiu o sargento.
Aquilo estava ficando fora de controle, na visão do jovem tenente. Num átimo, pulou de sua posição saiu correndo em direção ao corpo da guarda enquanto gritava para o sargento,
-Mantenha-me informado. Vou ligar para os artilheiros!
No caminho, viu um grupo de soldaados carregando uma silhueta metálica bem conhecida. Era um morteiro com um nutrido provisionamento de projéteis. Acercou-se rapidamente do grupo e perguntou pela responsabilidade da peça,
Eu, tenente, respondeu um jovem sargento.
O perfil atarracado do sargento, bem ao fenótipo cearense, destacava-se na penumbra.
Você está louco Feitosa. O paiol do Grupo de Artilharia está na nossa linha de tiro. Um tiro errado do morteitro levará aos ares os dois quartéis.
O jovem sargento gelou nas calças. Rapidamente, ordenou que a guarnição retornasse com o perigoso artefato. O tenete venceu o terreno, que o separava do corpo-da-guarda, em ágeis lances e arrebatou o telefone discando freneticamente o número do quartel vizinho. Finalmente, o oficial no comando do Grupo de artilharia atendeu a ligação.
-Aqui é o tenente Chaves do Batalhão Sampaio, com quem falo?
Ô Chaves, aqui é o Luís. que merda é esta no canal? Tem uns caras nos cobrindo de fogo de arma automática, e pela cadência, não são metralhadoras são fuzis de assalto!
Os dois conheciam-se dos bancos da academia. Passaram muitas, juntos no treinamento nos bancos da AMAN inclusive a mesma sova dos veteranos.
-Olha Luís, tem um fascínora atirando na gente de .50 e com projétil traçante, eu tô achando que eles roubaram de vocês.
Nada disto, seu pé de poeira. Tu achas que sou otário assim. As minhas anti-aéreas estão todas no lugar. Menos aquela que enviei para ajudar os meus rapazes contra o fogo dos fuzis automáticos!
Então, vocês estão atirando na gente, pôrra, com aquela pôrra de metralhadora de avião.
Então, surgiu, vamos dizer que simultaneamente, na mente dos dois soldados uma das coisas que mais aborrecem um combatente; o fogo amigo. Rapidamente combinaram um cessar-fogo e a formação de patrulhas para caçar os ferozes guerrilçheiros.
O cabo pareceu-me meio acabrunhado. Especialmente, por que não se alongou na descrição das atividades que agrassaram noite adentro nos dois quarteis.
Bem, Aspirante, isto faz muito tempo e eu acho que o senhor não vai contar nada por aí.
Olhei-o, sem conseguir disfarçar o meu sorriso.
-E o que aconteceu no outro dia, cabo?
-O que não devia ter acontecido! Vieram os figurões do QG e deram medalhas para todas, inclusive para o metralhador do quartel!