Copyright © 1994 Emilio Luciano de Miranda e Silva, segundo Common Rights
2005
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| Revisão 0.1 | 11/02/2005 |
De onde estava, eu ouvi os gritos. Já fazia algum tempo que mudáramos para cá. A nossa casa tinha sido destruída por um grande bombardeio. Aí a mamãe nos pegou e nos trouxe para Bocholt. Era bem menor que Wuperthal, mas mesmo assim, era boa de brincadeira. Andamos muito. A minha irmã pequena sempre no braço dela e eu tentando a todo custo acompanhar o seu passo. Eu não entendia por que o papai não estava lá para me levar no ombro como sempre fazia. Mamãe disse-me que ele estava longe. Num grande e frio país, a Rússia, lutando bravamente. A última vez que o vi foi na estação de trem. As botas brilhando, vestido com um bonito uniforme preto. Mas o que eu gostei mesmo foi aquela pequena caveira no seu quepe. Fiquei olhando para ela como que hipnotizado. Aquele russo idiota, gritando lá embaixo, tinha um uniforme horrível se comparado ao do papai. Hoje pela manhã, eu estive praticando o meu esporte predileto: arremesso de tijolo. Eu os jogava do terceiro andar de um pequeno prédio, meio em ruínas, quando passava alguém lá embaixo. Até agora, apesar do susto e da raiva, ninguém se dispôs a subir atrás de mim. E era exatamente com isto que eu contava para continuar a minha carreira de delinquência. Subi para o terraço e olhei para a praça. Não era tão bonita quanto a da minha cidade mas ficou inteira depois do último bombardeio. Parece que o mundo estava desabando na cabeça dos alemães. Primeiro os bombardeios e depois vieram os russos.
O soldado russo estava apontando uma pistola para um homem de joelhos. Logo reconheci o Günther. Ele era ajudante da Prefeitura. Um dos poucos homens que ficaram na cidade. O russo parecia louco. Lembrei-me do vovô, sempre com seus livros e sempre a me contar estórias:
- Venha aqui Urs, eu já te falei dos hunos? Eles eram terríveis e passavam o tempo todo saqueando vilas e cidades. Sempre montados em seus cavalos. Eles vieram da Rossland, a terra dos cavalos.
-E como eles faziam cocô, se estavam sempre montados?
-Assim meio de lado, dizia rindo, e me colocando de montaria em sua coxa. Um general romano, escreveu que eles sempre sabiam quando os hunos iam atacar. Era por causa do cheiro ruim. Sentia-se de longe.
-E os romanos viviam montados também? -perguntei, achando ótima a idéia.
-Montavam, mas não o tempo todo, respondeu, rindo e intuindo o alcance da minha próxima pergunta.
-Además, os romanos usavam banheiros, que chamavam de cloacas, sendo um dos poucos povos da antiguidade que os conheciam. A cidade de Roma tinha esgotos perfeitos para a época.
Eu sempre achava que estes russos eram os hunos do vovô. Ficava batutando, procurando os cavalos que eu via na minha imaginação. Mas, não os encontrava em Bocholt. Os russos não tinham cavalos. Mas o cheiro! Este sim, eu não tinha dúvida, era o mesmo. No dia que chegaram, puseram-nos a todos na praça. Um ao lado do outro. Começaram a revista. Um deles abaixou-se e fitou-me. Quase desmaiei. Fiquei hipnotizado nos olhos dele. Duas bolinhas faiscantes no meio de pálperas tão puxadas! Depois daquele dia, toda vez que a minha irmã me enchia a paciência eu puxava os olhos prá ela.
Tomei coragem e corri para a praça quando vi alguns se chegando. O Günther estava lívido. Ele foi um dos poucos homens jovens que ficou na cidade depois do início da guerra. Trabalhava na prefeitura e fazia de tudo um pouco: encanador, e letricista, escriturário ....
O soldado gritava em russo e desfechava chutes na barriga do pobre homem. Logo se formou uma pequena multidão temerosa, é bem verdade, mas curiosa com o destino do patrício. O sargento Yuri gritou da porta da prefeitura e o soldado calou-se. Ficou lá tremendo de raiva. O sargento, veio andando com aquela ginga de autoridade, ajeitando o cinto, falou em russo com o soldado. Este controlando-se começou a contar o motivo do desagravo. A platéia ansiosa, na expectativa pela tradução, ficou.
-Aonde estão as batatas Günther?, disse num alemão enviesado,
-Batatas? Não sei de batata não, respondeu Güntehr. Ao dá-se conta da resposta, apesar de não saber alemão, o soldado desferiu outro chute antes de ser contido pelo sargento. Falaram mais um pouco em russo e o soldado pegou o Günther pelos cabelos e saiu arrastando-o em direção à prefeitura.
Desde que eles chegaram, vindos do nascente, que tomaram posse da prefeitura. De vez em quando, chegavam mais tropas, porém, ficavam acampadas nos arredores da cidade. Minha mãe nos proibia de sair pois corria, à boca miúda, que eles atacavam até as crianças na mata. Mas não ficavam muito tempo , indo logo embora. O sargento e sua tropa guarneciam a cidade, Sempre dormiam na prefeitura que tinha calefação, que milagrosamente funcionava depois de todos os bombardeios, e é claro, banheiros, tudo em ordem com a ajuda do Günther.
Subimos todos para o primeiro andar, o sargento à frente, e o Günther sendo arrastado pelos cabelos foi levado diretamente para um banheiro que ficava no fim de um longo corredor. A pequena multidão, nestas alturas, completamente tomada pela curiosidade não se intimidava com o tranco dos fuzis da guarnição que com certo custo a continha. Esgueirei-me por entre pernas, quando o sargento foi gritando em alemão:
-Ele estava lavando as batatas alí, quando você veio por baixo e roubou-as!, disse apontando para a latrina.
-Mas sargento, eu estava lá embaixo consertando um encanamento e por isso mesmo não podia ter roubado batata nenhuma.
Depois de umas esperadas pancadas, o soldado pegou umas vistosas batatas sujas de terra, colocou-as na latrina e acionou a descarga,- tendo o cuidado de apará-las com a mão. Depois de parado o fluxo d'água, tirou-as e orgulhoso mostrou-as à platéia petrificada,- a de russos extasiada e a de alemães enojada com o feito. A sua alegria durou pouco, quando percebeu que uma delas desceu cano abaixo.
-Cão nazista, ainda fizeste uma arte para roubar mais batatas do meu pelotão?, vociferou o sargento ao Günther.
Neste ínterim, senti um tranco na orelha. Era minha mãe que puxava-me para longe do tumulto. Ao descermos as escadas ouvimos um tiro o que acelerou nosso passo. Todavia, ainda deu para ouvir a voz forte do sargento no seu meio alemão:
-Não existe perdão para roubo no exército vermelho.

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