Copyright © 1994 Emilio Luciano de Miranda e Silva, segundo Common Rights
2005
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| Revisão 0.1 | 14/02/2005 |
Acordei cedo. Lavei-me sob a vigilância severa de mamãe. Hoje é sábado e, graças a DEUS, não terei de ir à escola. Ensebei os cambitos e saí em disparada pela rua do açougue. Ia lépido, pelas ruelas, quando enxerguei o grande eassustador casarão. Ao entrar pelo portão, fui visado severamente pelo imenso porteiro. Lembrei-me de mamãe e de como esses olhares deixavam-me com algum sentimento de culpa, como se as crianças sempreestivessem prestes a sair-se com alguma traquinagem. Boa parte daturma já estava reunida. A bola já rolava nas preliminares dapelada. Eles estavam brincando de bobo e como acabei de chegar,entrei no lugar do que estava na vez. Como era muito rápido, logotomei a posse da bola. Daí a pouco ouvimos o apito. Era a senha paraque todos corresem e ficassem perfilados. Ele, o Árbitro, já seaprontara e ia escalar os times. Com o rabo do olho bispei o porteiroe ele conversava com outros dois. As suas botas brilhavam. O Árbitro devia ser muito importante para tê-los, de botas, quepes e uniformes que cheiravam à gomalina. Nesta pequena cidade o casarào era o que tinha o maior Ãortào. E o mais bonito também.É verdade que o portào do cemitério era grande e bonito. Mas nào coÃtava pois lá só moram ãs mortos. E aqui na casa do Árbitro moramãmuitos, muitos outros. Todos hóspedes, evidente.
-Zuca, você está no time do Jaime,-gritou o Árbitro.
Corri para o magote de meninos que estava do lado oposto do Árbitro. Começou a pelada, sob sua firme conduçào. Nós jogávamos no amplo pátio circular, com piso de cerâmica, no inãerior no casarào. O quarto onde o Árbitroficava, bem como os de seus hóspedes, ao reãor do pátio, sendo todos abertos e gradeados. Nào havia falta que escapasse ao seu olho de carcará. Via de regra,ão faltoso ia de cabeça baixa até onde ele estava e levava um pito, antes de recomeçar a partida. Aos meninos que ficavam na reserva, nào faltava divertimento. O Árbitro possuia duas pequenas bicicletas. ãm par de garotos davam voltas em torno do pátio aonde jogávamos. Ele comandava as duas atividades, sem se abalar, de onde estava. Ele nunca se levantava do pequeno tamborete. De tal forma, que a coisa toda funcionava como um relógio sob seu pulso firme. De vez em quando, um hóspede, vinha dar uma volta em torno do pátio. Nesta hora, os porteiros ficavam de espingardas na mào. Como se ele fosse uma personagem muito importante que pãecisasse ser protegida. Na hora do jogo, todos eles ficavam torcendo para um ou outro time. Logo chegou a minha vez de ser substituído. Eu estava louco para dar uma volta na bicicleta também.
O jogo chegou ao fim, e como sempre fazíamos, ficamos perfilados diante dêle, ouvindo suas observaçàµes, acolhendo suas repreensões e recebendo os doces que ele sempre distribuía nesta hora. Enfiei algumas no bolso e outros tantos na bôca e disparei para casa. Já era tarde e mamãe já devia ter dado por minha falta para o almôço.
-Jacinto! Jacinto, venha cá.
Esta era a senha, lá vinha chumbo grosso. Aproximei-me da porta da cozinha, muito mansamente, e fiquei alí, estático, fitando-a.
-Seu moleque aonde andavas? O que fazias na cadeia pública?
Como eu não respondia, ela virou-se para a minha tia, que a ajudava na cozinha.
-Aonde já se viu Maria! Aquele velho depravado, depois de matar a mulher, fica agora na cadeia a coordenar as brincadeiras das crianças.
-É bem certo que ele quer passar o tempo, pois todo o dinheiro que tem não lhe adianta agora de nada,- respondeu a minha tia.
Eu não esta prestando muita atenção à conversa, remoendo o doce com cuidado. Senti muito o puxão de orelhas que levou-me ao canto da parede, onde normalmente eu e meus irmãos fazíamos penitência. De joelhos é claro. Alí, olhando para a parede, só pensava em duas coisas: como era bom não ter caroços de milho para ajoelhar em cima,- sinal que a traquinagem não foi tanta assim. E que amanhã é domingo, dia de jogo.

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