Emilio Miranda

Página Pessoal

A Noite das Feras PDF Imprimir E-mail
Escrito por Emilio Miranda   
Sex, 24 de Agosto de 2007 09:55

Em adiantado, peço escusas pela imprecisão causada mais pelo meu desleixo de só tomar estas notas depois de muito tempo transcorrido entre este momento e o dos ocorridos, do que propriamente, dos agentes que os fizeram chegar até este enviezado autor...


Estava eu espremido num vôo regular entre São Paulo-Fortaleza, folheando a Folha de São Paulo [1] quando deparei-me com uma reportagem que relato a seguir.

O enredo começa com uma cena comum no cotidiano da Paulicéia Desvairada, um seqüestro relâmpago. O cidadão estava parado num semáforo em uma das artérias que desaguam na marginal do Rio Tietê quando foi abordado por dois meliantes que o dominaram e tomaram o volante do seu automóvel. Transcorria aproximadamente o tempo de 21:00h. Começou o périplo usual em direção aos caixas eletrônicos. A coisa principiou a desandar quando os dois trânsfugas empinaram o nariz do carro em direção à uma boca de fumo, aonde, ato seguinte, drogaram-se.

Já iam adiantadas as horas quando deram-se conta, os velhacos, que urgia desfazer-se da infeliz vítima que a tempos padecia em suas tenebrosas garras. Rumaram para uma margem erma do Tietê, se é que ele ainda tem margem naquele trecho, e fizeram-no sair do carro. Improvisaram umas amarras e ataram suas mãos para trás. Empurraram-no até a beira do barranco e, felizmente, cometeram um erro. Sucede que decidiram matar a miserável vítima com um balaço e, para isto, empurraram-no e atiraram. Exatamente neste ordem. A providência atuou no momento do passamento, de tal forma, que o petardo não fez senão um leve arranhão no ombro do desditoso. Dando-se por satisfeitos, a dupla de larápios escafedeu-se na noite paulistana.

Enquanto isto, o desventurado precipitava-se aos trambolhões em direção às pútridas águas do outrora piscoso Tietê. Ao término da desastrada queda, todo lacerado, jaz o nosso citadino com as pernas dentro d'água e o tronco arfante palpitando contra o malcheiroso barranco. Pela segunda vez, em um lapso de tempo, escapa da morte. Alí prostrado e ferido, o desgraçado reúne forças para fazer o caminho de volta. Barranco acima.

Enfim, depois de um esforço hercúleo e de um tempo que parecia não acabar, o nosso valente contribuinte, sujo e macerado vê-se ao pé da pista vergado pelo cansaço. Aí queda-se arfante com as pernas trêmulas pelo esforço ( tente levantar-se com as mãos atadas às costas). Finalmente, as coisas estavam indo no sentido de que ele, mais uma vez, poderia ver o pôr do sol

Lêdo engano. A princípio, pareciam-lhe sombras furtivas. Pouco a pouco, elas foram-se adensando. E daí um grupo materializou-se por entre as brumas. A alcatéia, tendo a frente um robusto meio-sangue de pastor alemão com seu lombo horrivelmente eriçado, mostrava fremitamente suas terríveis presas.

Aqui faço um intervalo para relatar-lhes uma observação que fiz antes de ter lido esta estória. Ao viajar pelo interior de São Paulo notei amiúde que os cães vira-latas eram maiores e mais encorpados que seus congêneres nordestinos. Até que em Serra Negra e depois em Ilha Bela topei um enorme cão Boxer e um Dinamarquês,respectivamente, com modos de cães vadios. Nas duas ocasiões indaguei pelos donos. O Boxer tinha sido abandonado em um sítio de muro alto e depois de alguns dias sem comer e beber pulou o muro e foi sobreviver na rua. O Dinamarquês foi simplesmente solto pelo dono que não mais o quis. Nos dois casos disseram que isto era relativamente comum. A partir daí, comecei a observar o resultado da miscigenação que esta atitude irresponsável provocava. E alí naquela apertada poltrona da aeronave tive pena daquela pessoa assediada por um bando de cães vira-latas depois de ferida a bala e entregue a própria sorte.

Bem, a matilha se achegou ameaçadoramente e o desaventurado arrumou forças para lutar pela vida. As primeiras investidas foram exploratórias. Logo as feras estavam mais audaciosas e ao perceberem a fraqueza e a limitação de movimento da vítima foram fechando o círculo. Por fim, quando já exausto e com as pernas calças em tiras, ele foi ofuscado por um farol de automóvel e uma buzina seguida de gritos. Era um táxi. Os cães ao perceberem a ameaça fugiram na noite. A solidariedade ainda existe na Paulicéia Desvairada e o desventurado terminou com vida sua horrível aventura naquela noite.

 

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar