Emilio Miranda

Página Pessoal

Boêmia e Tragédia na Noite Paulistana PDF Imprimir E-mail
Escrito por Emilio Miranda   
Sex, 24 de Agosto de 2007 09:52

A minha cunhada Rosa Stellin, paulistana da Vila Madalena, fez uma brincadeira comigo quando soube que eu tinha feito esta página,

-O título da página deveria ser: as mentiras da minha vida!

Sucede que um dos episódios mais bizarros de que tenho conhecimento ocorreu exatamente na frente da casa dela...


 

A Vila Madalena já faz um tempo que deixou de ser aquele bucólico refúgio dos estudantes da USP que lá moravam devido aos baixos preços e proximidade do campus. Os botequins dos imigrantes, em sua maioria, portugueses e espanhois deram lugar a bares e boites freqüentados pelos descolados da noite paulistana.

O avô da minha mulher, português bigodudo, legou aos descendentes um casario no quarteirão que lhe pertencia. As que restaram estão postadas na Rua Harmonia defronte ao Deli Paris. Quero, antes de continuar, relatar uma traquinagem de minha parte. Quando estou na casa da Rosa adoro ir comprar pão na padaria chique de nome francês. Saio de camiseta, bermuda e sandálias bem cêdo e seja com qual tempo for,- faz tempo que não faz mais frio bravo em Sampa-, e vou comprar uns carioquinhas bem no meio dos tomadores de café. Sisudos, elegantes a maioria de preto folheando os devidos jornais como num café parisiense. E eu lá com a cara amassada e as canelas de fora :>)

A Rua Harmonia é famosa por sua ladeira. O trecho da rua aonde a casa da Rosa se encontra é mais ou menos no meio da mesma. A rua termina em frente ao muro do cemitério São Paulo. É neste ponto que ela corta transversalmente um riacho que hoje não passa de uma galeria de águas pluviais. Qualquer chuvinha precipita na rua uma perigosa corredeira de água que devido a impermeabilização do solo e a inclinação da ladeira arrasta carros, destrói construções, etc. Um dia destes uma enxurrada derrubou a porta da frente da casa da minha outra cunhada, a Ester.

Bem, numa noite de chuva um pacato e gordo senhor bebericava uns drinques lá pelos lados da Fradique Coutinho. Já satisfeito, tomou o rumo de casa andando dois quarteirões á frente e virando a esquerda na Harmonia. Meio trôpego, empunhando o seu guarda-chuva lá ia o ébrio mantendo precário equilíbrio nas horríveis calçadas da Vila. Ao virar na Harmonia o turbilhão de água descia grosso. Sentiu-se seguro na calçada do prédio que é a melhor de todas. Passou em frente ao ponto de táxi que nestas horas fica vazio por temor dos taxistas de perderem os seu ganha-pão. Ao chegar em frente da revistaria do meu dileto amigo Pedro, o flatulento senhor deve ter parado indeciso. Uma árvore centenária, provavelmente, planatada pelo bigodudo lusitano deformou a calçada da casa da Tia Cila com suas potentes raízes. A deformação criou um declive para o lado de dentro da calçada fazendo com que a água em célere corredeira vá de encontro ao vetusto e robusto tronco. Um turbilhão furioso é, então, criado ao redor do mesmo arrastando carros dos desavisados que ali os deixam e colocando em risco a vida dos transeuntes. O imprecavido senhor avançou pelo lado mais interno da calçada decidido a molhar os sapatos quando, num átimo, a enxurrada o desequilibrou e ele foi ao chão.

O guarda-chuva aberto virou o seu instrumento de suplício. A água, em desabalada carreira, ao encontrar tal anteparo empurrou o já condenado transeunte em direção à coxia aonde corria grosso e célere o fluxo principal. Sucede que logo à frente, no meio-fio da calçada da casa da Rosa, um carro estacionado serviu de escora para o condenado senhor. E alí, bem na frente da casa dela, aconteceu uma cena surreal. Uma cena que daria um bom mote para um filme de terror. Ou uma boa invenção, uma mentira vamos dizer assim, numa conversa à toa numa mesa de bar. Aos gritos os escassos espectadores, acorreram à rua, arriscando-se à sanha da corredeira mortal; o meu concunhado, Adriano, homem de compleição franzina mas de uma coragem de leão e outros. Debalde eles tentaram. O Adriano me confidenciou que durante instantes segurou a mão do senhor entalado debaixo do carro. Todavia, o peso dele lá pelo 90Kg bem encaixados na traseira do veículo e a água correndo perigosamente nos seus pés quase desequilibrando-o, fez com que ele largasse a mão do infeliz sob pena de ter o mesmo destino. Outros tentaram de outras maneiras e outros ângulos, mas o guarda-chuva, porém, não deixava ninguém aproximar-se, a não ser que o incauto quisesse arriscar-se a cair na correnteza. O senhor lutava desesperadamente. Ora tentava empurrar o guarda-chuva para o lado, ora se apoiava no seu para-choque e tentava em vão sair por onde entrou.

Finalmente, alí em frente a Delí Paris e a casa da Rosa uma vida se esvaiou estupidamente. Como que num til à toa na algaravia escrita, em insandecida faina diuturna, pela coletividade da Paulicéia Desvairada.

Casa da Rosa na rua Harmonia 

 

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